- Reflexões a partir do filme “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet -

cartaz do filme

“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens.” (Arendt, H. 1954)

O semidocumentário “Entre os Muros da Escola”, do diretor e roteirista francês Laurent Cantet, tem suscitado algumas discussões na imprensa brasileira desde sua estréia por aqui.
De fato, o filme faz brotar, do começo ao fim, questões amplas e diversas acerca da sociedade – refletida aqui na sala de aula -, do futuro de jovens e velhos que a compõem e, sobretudo, a respeito do valor da educação.
O filme de ficção retrata, nos moldes de um documentário (baseado no livro documental de François Bégaudeau “Entre les Murs”), o cotidiano de uma escola da periferia de Paris, mais especificamente, as experiências em sala de aula de um professor de Francês.
À parte as diferenças culturais e de realidades locais que possam ser consideradas numa análise mais detalhada sobre a instituição escolar, a questão flagrante para os alunos daquela escola, seus professores e os espectadores do filme nos embute uma certa dose de constrangimento, a saber: Por que estudar e por que ensinar? Por que estamos aqui nesse lugar?
A certa altura do filme, num momento de grande tensão, a sensação latente é a de que estamos todos constrangidos em estarmos aqui, nesse lugar sem nenhum sentido – a escola.
Diante disso, os alunos pressionam o professor por uma resposta, o professor testa, sem nenhum sucesso, sua legitimidade frente aos alunos e os espectadores emocionam-se, revoltam-se, chocam-se e inquietam-se.
A teórica política, Hannah Arendt, que recusava a designação de filósofa, pensa profundamente esta questão em seu livro “Entre o Passado e o Futuro”. Como tese, propõe a natalidade como o fator fundante da educação.
Ora, a natalidade corresponde ao fato de que seres humanos nascem num mundo que preexiste a eles, que não é naturalmente o de cada um deles. O mundo no qual são introduzidas as crianças é um mundo velho, isto é, um mundo preexistente, construído pelos vivos e pelos mortos.
A criança, objeto primeiro da educação, possui para o educador um duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação, ou seja, irá se transformar na sua relação com este estranho, na medida em que sua geração também o transformará. A criança é nova em relação a um mundo que existia antes dela, que continuará após sua morte e no qual transcorrerá sua vida: o mundo da cultura.
Pertence à própria natureza da condição humana o fato de que cada geração se transforma, inevitavelmente, em um mundo antigo.
E é deste conflito de gerações, entre o antes e o depois, que emerge a função educacional, pois seu papel irrevogável é o de administrar e garantir imprevisibilidade à chegada do novo num mundo sempre antigo e obsoleto. Podemos dizer que este é o lugar da escola: entre o antes e o depois, entre o passado e o futuro das gerações.
Os pais não apenas trouxeram seus filhos à vida mediante a concepção e o nascimento, mas, simultaneamente, os introduziram em um mundo. Eles assumem na educação a responsabilidade, ao mesmo tempo, pela vida e desenvolvimento da criança e pela continuidade do mundo. Nesse sentido, a educação revela responsabilidade face ao mundo.
Os adultos, envolvidos nesta introdução dos recém-chegados a um mundo que não é naturalmente o deles, têm a responsabilidade absoluta de introduzi-los e de acolhê-los como sucessores imprevisivelmente novos. Esse acolhimento dos recém-chegados é de total importância para a renovação e, concomitante, preservação do mundo.
A responsabilidade pelo desenvolvimento da criança volta-se em certo sentido contra o mundo: a criança requer cuidado e proteção especiais para que nada de destrutivo lhe aconteça de parte do mundo e deverá ser suficientemente protegida – movimento que se orienta contra o mundo. Porém, também o mundo necessita de proteção, para que não seja derrubado e destruído pelo assédio do novo que irrompe sobre ele a cada nova geração – movimento que se orienta em favor do mundo. É por isso que o acolhimento das crianças, advindo da responsabilidade sobre seu desenvolvimento, é algo que deve possibilitar o novo, sem que este consuma vorazmente a tradição do mundo antigo.
A escola não é de modo algum o mundo e não deve fingir sê-lo; ela é, em vez disso, a instituição que interpomos entre o domínio privado do lar e o mundo, com o intuito de fazer com que seja, de alguma forma, possível essa transição.
O educador está em relação ao jovem como representante de um mundo pelo qual deve assumir a responsabilidade. Essa responsabilidade não é imposta arbitrariamente aos educadores; ela está implícita no fato de que os jovens são introduzidos por adultos em um mundo em contínua mudança.  É o educador quem irá apresentá-lo à criança, com a responsabilidade de quem faz parte deste e o compreende, não totalmente, é verdade; mas é alguém capaz de assumir os riscos diante do desconhecido.
Na educação, essa responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém, sua autoridade se assenta na responsabilidade que assume por ele. Diante da criança, é como se o educador fosse um representante de todos os habitantes adultos. É ele que irá apontar os detalhes do mundo e, de certa forma, apresentá-lo à criança, tal como um anfitrião.
Um outro filme francês que tem a escola como cenário, o documentário de Nicolas Philibert “Ser e Ter”, retrata essa relação entre educador-anfitrião e alunos recém-chegados ao mundo. O professor de “Ser e Ter” tem sua autoridade enraizada, não no seu profundo conhecimento a respeito do mundo, mas na responsabilidade que assume diante dele; e, pacientemente, o apresenta aos alunos.
O conservadorismo, no sentido de conservação, faz parte da essência da atividade educacional, cuja tarefa é sempre abrigar e proteger alguma coisa – a criança contra o mundo, o novo contra o velho, o velho contra o novo.
“Entre os Muros da Escola” retrata claramente o conflito sobre o que deve ser ensinado e qual seu valor. Adolescentes, em sua maioria imigrantes, contestam ensinamentos do francês culto, já que não é assim que se comunicam entre si, no seu cotidiano. Fica explícita a dialética: como incorporar o novo, ao mesmo tempo, preservando o velho?
Nossa esperança reside sempre no novo que cada geração aporta. Precisamente por basearmos nossa esperança apenas nisso, porém, é que tudo destruímos se tentarmos controlar os novos de tal modo que nós, os velhos, possamos ditar sua aparência futura. E negar a tradição diante do novo é desprovi-lo de seu caráter inovador.
Eis aí a contradição: exatamente em benefício daquilo que é novo e revolucionário em cada criança é que a educação precisa ser conservadora; ela deve preservar essa novidade e introduzi-la como algo novo em um mundo velho, que, por mais revolucionário que possa ser em suas ações, é sempre, do ponto de vista da geração seguinte, obsoleto e rente à destruição.
Isso significa que o velho só pode ser preservado na medida em que for renovado, assim como o novo somente valerá como tal diante do preexistente.
Pode-se dizer que a crise na educação surgiu sob as condições de uma sociedade de massas e em resposta a essas exigências.
O homem moderno não é mais o homem que sofre a ruptura entre o passado e o presente, entre o antes e o depois, mas o homem que carrega em si mesmo a ruptura. Porém, esta busca pelo inédito acaba por cair em um paradoxo: com o tempo, a negação da tradição termina por instituir-se por sua vez em tradição: “tradição da ruptura”.
Existe assim uma espécie de incompatibilidade estrutural entre o espírito de modernidade e a justificação da educação como tradição e transmissão cultural.
É necessário perguntar se as pessoas querem exigir ou confiar a alguém o ato de assumir a responsabilidade por tudo o mais, pois sempre que a autoridade legítima existiu, ela esteve associada com a responsabilidade pelo curso das coisas no mundo. Toda e qualquer responsabilidade pelo mundo está sendo rejeitada, seja a responsabilidade de dar ordens, seja a de obedecê-las. Basta verificar a enorme quantidade de programas televisivos que buscam orientar pais completamente infantilizados e desprovidos de autoridade frente aos jovens. Soma-se a isso, a flagrante falta de comprometimento mundial diante das questões de preservação e sustentabilidade ambientais para as próximas gerações.
A autoridade foi recusada pelos adultos, e isso somente pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças; um mundo cuja tradição foi perdida.
A crise da autoridade na educação guarda a mais estreita conexão com a crise da tradição, ou seja, com a crise de nossa atitude face ao âmbito do passado.
É do ofício do educador servir como mediador entre o velho e o novo, de tal modo que sua própria profissão lhe exige um respeito extraordinário pelo passado.
Ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida aos seus próprios olhos. No entanto, o homem moderno, não é capaz de validar um conhecimento a ser transmitido, já que este se refere invariavelmente ao passado e à tradição.
O problema da educação no mundo moderno está no fato de, por sua natureza, não poder esta abrir mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade, nem tampouco mantido coeso pela tradição. Dessa maneira, a intenção educativa encontra-se paralisada, esvaziada de pertinência e legitimidade. E o espaço “entre os muros” encontra-se cada vez mais oprimido, já que entre o antes e o depois não resta mais intervalo que os discrimine.
De acordo com Hannah Arendt, a função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver, ou seja, não possui um caráter pragmático nem sequer deve exibir orientações de conduta. A aprendizagem volta-se inevitavelmente para o passado. É nessa medida que a educação representa nossa atitude face ao fato da natalidade: o ato de todos nós virmos ao mundo ao nascermos e de ser este constantemente renovado mediante o nascimento.

Palavras-chave
  • Cinema
  • Educação
  • Escola

2 comentários em “Para que serve a escola?”

  1. A pouca legitimidade que a escola e o professor ainda têm é reduzida a cada dia pela falta de atenção que o poder público tem lhes dado. Se o governo, qualquer governo, não deixa clara a importância da educação, por que esperar que os jovens o façam? Por que esperar que os jovens se interessem pelo que se tenta ensinar em sala de aula? Em uma república oligárquica, como é o caso do Brasil, na qual poucos têm a chance de prosperar, como cobrar do jovem compromisso com o estudo? Aqui, talvez em parte alguma, não reina a meritocracia. Se você não for filho de alguém (“sabe com quem você está falando”) pouco, muito pouco importa o conhecimento acumulado ao longo de uma vida. Não é fácil defender a importância do saber quando o próprio país pouco sabe. Basta comparar a nossa produção científica em relação a outros países. Aqui não se incentiva o conhecimento porque ainda somos uma grande fazenda, como na era colonial. Basta fazer uma análise rápida dos principais itens da nossa pauta de exortações (a maior parte formada por produtos primários). Educação com alguma qualidade exige um comprometimento que a nossa elite nunca teve. Se na França é duro, como bem mostra o filme “Entre os Muros da Escola”, imaginem como é a educação por aqui. Nem é precio imaginar, basta o ver o país que somos.

  2. Graziela, parabéns pela bela escrita, mesmo quando tal beleza é invocada para refletir acerca de algo tão apavorante quanto a “incompatibilidade estrutural entre o espírito de modernidade e a justificação da educação como tradição e transmissão cultural”. Você mostra – apoiada em Hanna Arendt que não abre mão de uma concepção de cultura que realmente sirva à emancipação – o quanto a escola deveria ser igual e diferente do mundo. Mas a partir do filme, não é possível não haver choque ao perceber o descompasso entre uma educação que mereça o nome e uma voltada à mera continuidade do mundo, mas no sentido de uma repetição irracional do antigo. Mesmo nos âmbitos acadêmicos em que a pobreza material não é tão manifesta, como nos casos da periferia pobre, temos uma pobreza de espírito que fez se tornar démodé pensar fora dos moldes positivistas. Falar em “mundo da cultura”, ou qualquer reflexão que se contraponha ao mundo por amor aos homens já não têm espaço ou causa estranhamento: são inúteis, como os livros do professor de francês, na opinião de seus alunos. A pergunta “por que estudar e por que ensinar?” se esvazia cada vez mais porque a educação hoje não passa de mero instrumento técnico para continuar a reproduzir cegamente a irracionalidade de uma base econômica irracional. As gerações não se transformam mais, pois tudo muda para que tudo continue igual. A educação não mostra mais qualquer outra possibilidade face ao mundo, como você destaca. Tudo se torna repetição se a tradição não é elaborada e se o novo não tem vez. O motor da alma, o que a psicanálise chamou de pulsão, necessita do novo para circular e ganhar vida, sem o novo ela se transforma em mera compulsão. Daí um mundo em que as drogas são problemas e só resta construir muros concretos onde antes eles eram apenas simbólicos. Mesmo com uma crise econômica fragrante em que é visível que vivemos em função da economia ao invés de ela nos servir, as consciências continuam alienadas e presas aos antigos, mas cada vez mais opressores, muros das ideologias dominantes, contra as quais a educação já pouco pode. Essa deveria ser a razão da educação: mostrar ao indivíduo as possibilidades do presente para a liberdade de fato. É bela também a idéia do educador como autoridade e anfitrião, pena que ele não consiga mais resistir. E com a autoridade, se finda também a responsabilidade pelo mundo, já que aquela é a mediação necessária para que possamos nos sentir responsáveis por algo. Mas não podemos nos esquecer que o filme nos permite pensar alguma resistência e esperança: há também a figura do filho de imigrantes chineses, que apesar da dificuldade da língua, ainda respeita a autoridade e encontram algum sentido nela para a disciplina do espírito; e a menina que ao final chega à consciente constatação de que nada aprendeu: talvez esse “nada” seja nada que faça sentido, seja a percepção de que a escola está no caminho errado para o que realmente importa ao homem, talvez seja a sensibilidade mostrando que há algo muito errado no mundo, e quando isso ficar claro para todos – porque talvez isso não esteja tão longe da consciência geral – quem sabe os muros caiam, a tradição possa ser transmitida e experienciada, e o novo possa surgir de fato. Parabéns pelo texto e pela possibilidade de pensar sobre o filme e sobre a questão. Nivaldo

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