A Importância das Interpretações Insaturadas na Prática Clínica

Publicado por Pedro Belarmino Garrido

“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia volta atrás da casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem

Manoel de Barros”

Nesse trecho, o poeta nos remete a uma importante dimensão da palavra, enquanto limitadora do gesto, esmagadora do sentido. A fala, entendida normalmente como comunicação, aqui ganha significado oposto. Nesse exemplo, a nomeação restringiu a experiência, tornando demasiadamente real o que, por estar no campo da fantasia, era dotado de múltiplos sentidos, tinha existência infinita.

Na atividade clínica somos, como analistas, convidados a realizar escolhas interpretativas. Em alguns casos, percebemos que a interpretação amplia a possibilidade de comunicação e traz ao paciente o alívio da compreensão. O que era inicialmente indizível – e por isso assustador – se desloca para o campo do sentido e, por isso, passa a ser experimentado de outra maneira. Porém, por vezes, percebemos que nossas comunicações verbais nos retiram do campo analítico e, o que era, a princípio, permeado de sentido, parece desfazer-se. Um analista reflexivo utiliza situações como essa para remodelar suas escolhas operacionais, e é justamente nessas idas e vindas interpretativas que se dá uma análise.

São muitos os aspectos que parecem nos aproximar, mesmo que de forma tangencial, de interpretações bem ou mal sucedidas, e a literatura psicanalítica está repleta de explorações a esse respeito. Certamente, o sucesso das intervenções não é determinado pela técnica utilizada, e Luis Claudio Figueiredo desenvolve essa idéia com preciosidade:

“A questão, creio, é de se instalar uma dialética entre implicação e reserva. A sustentação de uma presença implicada e, fundamentalmente, reservada, pode exigir variados desenhos e diferentes estratégias. (…) Em todas as estratégias, contudo, a manutenção e criação de reservas psíquicas dá o rumo e a meta do processo analítico. É nessa medida que uma ética se mantém, enquanto as técnicas podem variar” (2000).

O ponto central, portanto, parece estar relacionado à posição ocupada pelo analista, que deve sustentar essa postura de implicação reservada, ou de reserva implicada. Gostaria de abordar, brevemente, a questão da saturação do sentido nas interpretações, que, a meu ver, dizem sobre esse lugar ocupado pelo terapeuta.

Antonino Ferro salienta a existência de um campo formado pelo par analista-paciente, que define uma “situação terapêutica compartilhada”. Sob esse vértice de escuta, as interpretações devem abrir para novas possibilidades, ao invés de oferecerem um significado único para a experiência. Elas devem ter uma potencialidade semântica mais ampla, “como pedacinhos de ‘lego’ polivalente, de múltiplas possibilidades de encaixe, que permitem o desenvolvimento do tema do paciente sem determiná-lo demais ou fechá-lo num sentido forte demais” (Ferro,1997). Com essa imagem, Ferro se refere à interpretações que foram, anteriormente, chamadas de insaturadas, por Wilfred Bion.

Com as interpretações insaturadas, a autoria dos significados e insights deixa de ser do analista. Como uma mãe suficientemente boa, que, oferecendo a experiência da ilusão, coloca o seio real exatamente onde o bebê está pronto para criá-lo1, o analista disponibiliza material para que o paciente tenha a experiência criativa de construção de sentido para suas vivências.

Ferro coloca que “(…) é necessário que a doença da qual o paciente é portador contagie o campo, e que, de certa forma, o campo adoeça da mesma enfermidade do paciente, que se torna então doença do campo, e que deste ponto se caminhe para uma transformação do campo em direção à cura do mesmo, que uma vez acontecida será introjetada pelo paciente no seu mundo interno e reordenada em sua história, uma história de qualquer forma nova (…)” (1999).

Para que o analista vá buscar o paciente onde ele está, criando um continente bem seguro, onde todos os temas possam vir à tona, os sentidos não podem ser oferecidos de maneira precoce.

Essa postura vai ao encontro da posição paradoxal de reserva e implicação, sugerida por Luis Claudio Figueiredo. A imagem do “lego polivalente” de Ferro possui uma dimensão real e objetiva, comportando alteridade e presença, mas, ao mesmo tempo, contém aspectos de ausência, de distância, que permitem a experiência criativa.

As interpretações devem carregar algum grau de insaturação independentemente do vértice de escuta em que o analista se encontra. Elas podem se referir ao que está sendo vivido pelo par analítico, à transferência, ao mundo interno do paciente, ou à relação dele com fatos históricos ou objetos externos, mas não podem ter um sentido unívoco, às custas do nome empobrecer a imagem – como bem nos lembra o poeta.

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Autor: Pedro Belarmino Garrido
Categoria: Ensaios

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