You are here: Home → Arquivos → Tag → Psicanálise
out 13, 2010

A Questão do Dinheiro em uma Clínica Institucional

A temática do pagamento é relevante e presente em qualquer situação de análise. Pela via do dinheiro circulam aspectos que precisam de escuta por parte do analista e que fundamentam certos manejos clínicos. Em Psicanálise, portanto, o pagamento não é uma problemática concreta, alheia ao padecimento do paciente. Pelo contrário, ele deve ser tratado tão singularmente como o sofrimento único daquele que fala. Como fica, então, quando o pagamento está inserido em um contexto de clínica social? Este foi o ponto de partida de  discussões bastante férteis  entre colegas de uma equipe clínica que culminaram na produção deste texto.

Em uma clínica institucional temos um elemento a mais em relação à clínica particular: a instituição intermedeia o contato analista-analisando e perpassa-os com suas leis. Neste contexto, é importante que a inclusão institucional não impeça o reconhecimento das implicações clínicas vinculadas ao pagamento. Nesse sentido, é essencial que a definição do contrato de pagamento possa ser feita no contexto analítico, mesmo que norteada pelos parâmetros institucionais. Por outro lado, é muito interessante quando se pode contar com um dispositivo institucional de entrevista com assistente social, ao qual temos a possibilidade de recorrer em casos em que clinicamente entendemos ser necessária a inclusão de um “terceiro” que legalize certas decisões da dupla. O uso deste dispositivo, entretanto, lança seus efeitos no atendimento, o que demandará, por sua vez, um trabalho clínico. Alguns destes entrelaçamentos clínico-institucionais, no que tange ao pagamento, serão ilustrados na vinheta clínica que se segue.

Maria (*) procurou a clínica nesta instituição e começou sua análise pagando um valor previamente combinado com a analista. Após alguns meses ela vivenciou uma separação conjugal e passou a ter sérias dificuldades financeiras. Nesse contexto, a analista recorreu ao dispositivo institucional das entrevistas com a assistente social, oferecendo a possibilidade da paciente ficar isenta do pagamento em dinheiro. Maria, por sua vez, apresentou certa resistência em aceitar a proposta. Tal dificuldade se manifestou primeiramente em constrangimento e recusa imediata, depois em silêncio. Como a situação financeira da paciente só agravava, sua resistência ia ficando mais evidente, até que ela solicitou um horário com a assistente social. A pergunta que surgiu no momento foi: qual o fantasma/fantasia que poderia estar por trás de sua dificuldade de passar à condição de não pagante em dinheiro? Qual era o significado de pedir ou aceitar ajuda financeira para Maria? A partir da entrevista realizada com a assistente social e a isenção do pagamento em dinheiro, ocorreu um desinvestimento  por parte da paciente em relação à análise, que se expressou em inúmeras faltas sem aviso. Será que não poder pagar em dinheiro significava uma perda de valor? Será que a análise passou a lhe custar muito caro quando já não era mais paga em dinheiro? Passaria a paciente à condição de devedora?

Diversas vezes, em sua história de vida, Maria recorreu ao pagamento através do corpo quando passava por dificuldades financeiras. E agora, na análise, como pagaria? Com o quê pagaria? O significado do dinheiro, para esta paciente, trazia à tona questões relativas a sua sexualidade e aos tipos de relações  de troca que estabelecera, até então. Será que para Maria o custo do tratamento não seria mais caro que o custo de seu sofrimento, de seu sintoma?

Em relação ao manejo do analista, como positivar para a paciente o valor de sua análise e, também, como incluir a presença de um outro tipo de pagamento que não em dinheiro, uma vez que, nas palavras da prórpia paciente, “ninguém dá nada de graça” . Como explicitar para ela os ganhos do terapeuta para que não sejam geradas “dívidas” na relação?

Outro paciente desta mesma instituição, uma criança de oito anos, virou-se à psicóloga e disse: “Você ganha para trabalhar comigo? Deve ganhar bastante dinheiro porque trabalha muito bem!”. Não há espaço nesse escrito para maiores esclarecimentos do caso, mas fica registrado na fala desse menino que as trocas: poder oferecer algo ao terapeuta, além de receber seus cuidados, é essencial para um bom andamento de um processo analítico. Em situações como essas se cria uma ótima oportunidade para o analista  refletir sobre toda a gama de ganhos em seu trabalho que não, apenas, o monetário.

Temos, a partir desses exemplos, que a questão do dinheiro circula de forma diferente em cada par analista-analisando e, desta forma, é importante que tal fato não seja negligenciado no decorrer do processo analítico. A não presença concreta do pagamento, ou seja, a inexistência  do dinheiro como moeda de troca- nesse contexto- não implica em uma ausência. Pelo contrário, constitui a presença de significantes que circulam na transferência e que vão adquirindo diversos significados no decorrer da análise.

(*) nome fictício

set 2, 2008

O Campo Analítico dos Transtornos Alimentares: Comunicação e Nutrição Psíquica1

Transtornos Alimentares e Psicossoma

A gravidade dos transtornos alimentares provoca uma preocupação absolutamente coerente com as questões relativas ao organismo, suas necessidades de nutrientes, de equilíbrio biológico. O comportamento dos pacientes é normalmente posto em primeiro plano: mira-se o comer em demasia, o devorar, as reações compulsivas (indução de vômitos, exercícios físicos compensatórios), a negação em se alimentar. As conseqüências são medidas via índice de massa corporal, exames médicos e nutricionais, ou expostas em imagens bruscas que vão desde a terrível cadaverização do anoréxico até a desfiguração do obeso mórbido.

Por tratarem-se, em casos extremos, de questões de “vida ou morte”, esses transtornos tendem a serem vistos e cuidados, prioritariamente, através de parâmetros sintomáticos concretos e imediatos. No entanto, de que necessitariam tais sintomas que não, justamente, de mediação? Mediação como abertura para aquilo que é da ordem de um “curto-circuito”, que propicie símbolos, nomes, contorno.
Apóio-me na Psicanálise ao propor uma mudança de perspectiva – do biológico ao psíquico – a fim de examinar alguns aspectos relacionados a esses fenômenos cada vez mais freqüentes (com isso, meu desejo é possibilitar uma incursão em um ponto de vista, o que obviamente não implica em deixar de considerar a importância de uma atenção aos aspectos – muitas vezes urgentes – relativos à saúde física).

Tal mudança somente é possível levando-se em conta que, para a Psicanálise, o corpo biológico situa-se além do limite do conceitualizável: um órgão – e, no limite, todo o corpo – é, a princípio, oco de símbolo, não passa de carne. O campo simbólico somente advém através de uma elaboração do que se passa no campo somático, quando é construída uma ponte entre um universo bruto e um psiquismo nascente – que desenha os primeiros traços simbólicos a organizar as experiências subjetivas.
Essa ponte se constrói quando o que é da ordem dos instintos, das necessidades puramente biológicas, passa a um outro plano, que tange o psíquico: o plano pulsional. Portanto, psique e soma se articulam através da pulsionalidade, formando uma unidade.

O psicanalista André Green (1990), ao refletir sobre a definição de Freud para a pulsão – “um conceito-limite entre o psíquico e o corporal” –, propõe que este
“talvez se trate do conceito do que está no limite do conceitualizável, justamente por se tratar de algo situado em uma fronteira, sendo somente o psíquico abrangido pelo conceito, talvez o somático escapando à conceitualização, se quisermos falar dessa conceitualização em termos de psíquico. (p.16)”
O que escapa à conceitualização seria o que escapa ao símbolo, e poderia constituir um além do campo psicanalítico. De fato, os sintomas que hoje são chamados “psicossomáticos” compunham, para Freud (1894[1895]), o campo das neuroses atuais, manifestações que estariam fora do alcance do analisável, justamente por não passarem pelo aparelho psíquico, por estarem do outro lado da fronteira que divide o que é ou não passível de simbolização.

No entanto, em um estudo sobre os limites do analisável, o psicanalista J. B.-Pontalis (1977) encontra uma situação paradoxal. A partir da soma das divergências de opiniões de diversos analistas, ele chega a um resultado quanto às indicações para a análise, no que diz respeito ao alcance da técnica, que é expresso da seguinte maneira: “todas as organizações psicopatológicas podem ser abordadas pela psicanálise; nenhuma, nem as neuroses mais ‘clássicas’, é realmente acessível em suas raízes”.
Indo além dessa primeira aproximação, ele observa que os movimentos da Psicanálise realizam-se justamente em direção a essas raízes, em direção àquelas que são consideradas as fronteiras de seu próprio campo. Assim, os limites são tidos por esse autor como lugares privilegiados de renovação da Psicanálise e, ainda que os movimentos de ruptura advindos daí não sejam acolhidos de imediato, não haveria como ignorá-los nem deixar de integrá-los a um arcabouço teórico-clínico constantemente em transformação.

Pontalis destaca, ainda, uma tentativa por parte dos “analistas contemporâneos mais sensíveis ao questionamento clínico [de] tentarem transformar essas bordas em confins para, a partir deles e não mais de um centro garantido, pensar sua experiência como um todo”. Para ele, não haveria nisso “o sinal de uma fase pré- ou pós-analítica, mas a tomada de consciência, já fecunda, do que está pressuposto nas tópicas freudianas: elas se dão um espaço psíquico já edificado, com suas ‘fronteiras’ externas e internas, suas ‘províncias’ e sua ‘barreira protetora’. Se psicanalisar é essencialmente instituir esse espaço, a realidade da análise só poderia estar nos limites do analisável”.

No que diz respeito às manifestações psicossomáticas em Psicanálise e, em especial, às questões relativas à alimentação, a realidade da análise – que é vivida no campo transferencial – resgata as experiências constituintes da subjetividade. O trabalho analítico se dirige, portanto, a um campo originário, no qual a função materna – de dar ao bebê um contorno para as manifestações sem nome advindas de seu corpo, de auxiliar na “digestão” das experiências primitivas – serve de metáfora para a função do analista2.

Essa função de dar sustentação para um processo de simbolização, seja ela exercida pela mãe com seu bebê ou pelo analista com seu analisando, propicia uma abertura para o mundo humano: faz um rasgo na ordem instintiva, da qual nasce a pulsionalidade, possibilitando o acesso ao simbólico – constituinte do “eu” e da realidade. Ao mesmo tempo, ela é também a própria lida com um sujeito recém-chegado a esse mundo.

Alimentação e Psicanálise

Lidamos em Psicanálise com um sujeito cujo psiquismo é construído sobre uma base arcaica somática, sendo ela sempre aquém de simbolização. Segundo Winnicott (1988/1990, p. 44-47), a psique se forma a partir do material fornecido pela elaboração imaginativa das funções corporais de todos os tipos, dando sentido às experiências. Assim, sensações de fome e saciedade, movimentos de alimentação, digestão e excreção, dão forma e suporte a um certo campo do funcionamento psíquico – o campo da sexualidade pré-genital. E, de fato, a Psicanálise se vale com freqüência das relações entre o psiquismo e a nutrição naquilo que diz respeito às primeiras relações objetais.

Para uma primeira aproximação clínica, recorro a um trabalho de curta duração – interrompido – com uma jovem vestibulanda que se queixava de refluxo. Ela sentia vontade de vomitar quando saía de casa, especialmente para o cursinho, o que a fazia retornar para o lar. Uma expressão melancólica ganhou forma, e dizia respeito a uma infância perdida, desvanecimento do seu lugar de criança junto ao aconchego parental. A palavra voltar aparecia com freqüência em suas falas, e isso pude relembrar vivamente em um telefonema ocorrido algum tempo após a interrupção do trabalho. Ela manifestou, naquele momento, a intenção (não levada adiante) de retomar a análise. Disse, justamente: eu acho que vou voltar. Ir adiante – ou mesmo pensar no movimento da vida, na possibilidade de crescer – era vivido com angústia, era literalmente indigesto, e o alimento voltava.

Nessa paciente, a relação com o próprio crescimento enquanto alteridade em si mesma (transformação), a saída do âmbito familiar e conhecido, foram vividas como indigeríveis. Todo esse movimento, que exigiria simbolização, se manteve expresso na concretude do corpo: a alimentação acompanhada de seu avesso – o refluxo, que a levava de volta para casa.

A experiência de relação, nesse breve exame, pode ser apresentada aqui através de um destaque para um fechamento ao outro: há, no jogo “auto-erótico” do refluxo, uma proteção à entrada em contato com tudo o que não é familiar (a entrada em análise aqui incluída) – ou, sob um certo aspecto, uma defesa contra o fantasma do desamparo e da solidão que acompanhariam o crescimento. Reconstrói-se o conforto perdido, na contramão das exigências da realidade – ir ao cursinho, crescer –, ainda que arcando com os sofrimentos proporcionados pelo sintoma.

Mas uma aproximação como essa, que busca um sentido oculto no sintoma, realmente só pode ganhar densidade e realidade analítica na medida em que articula possibilidades de sentidos ao jogo a dois vivido sob transferência. No que se refere aos transtornos alimentares, proponho tratar a relação analítica sob um certo ponto de vista: como comunicação que nutre. Assim, sendo uma análise um processo a dois, a alimentação está aí remetida, necessariamente, à relação com o outro: nutrir, digerir, expulsar os dejetos são, em psicanálise, formas de relação.

Denis Vasse (1987) propõe que
“abrir a boca para comer, com o encadeamento da deglutição apaziguadora da fome, não deixa de ter uma ligação com abrir a boca para falar, com o encadeamento da audição apaziguadora que acalma o desejo da presença do outro (p.31).”
Essa comparação entre a escuta analítica e a alimentação remete às primeiras experiências do bebê com a mãe, em especial com o seio, fonte vital.

Penso, com Klein (1957) e Winnicott (1988b), que a mais primitiva forma de relação que um ser humano experimenta a partir do nascimento – aquela vivida com a mãe durante a amamentação –, serve de base para a constituição do sujeito e para as suas experiências subseqüentes.

A respeito disso, Klein (1957) faz a seguinte afirmação:
“No decurso de todo o meu trabalho, atribuí importância fundamental à primeira relação de objeto do bebê – a relação com o seio materno e com a mãe – e cheguei à conclusão de que se este objeto primário, que é introjetado, se enraíza no ego com relativa segurança, acha-se assentada a base para um desenvolvimento satisfatório. Fatores inatos contribuem para este vínculo. Sob o predomínio dos impulsos orais, o seio é instintivamente percebido como fonte da nutrição e, portanto, num sentido mais profundo, da própria vida (p. 29).”
A partir daí, “o seio bom é absorvido e se torna parte do ego, e o bebê, que primeiramente estivera dentro da mãe, tem agora a mãe dentro dele” (p.30).

Ainda quanto à relação com o seio, ela destaca a importância vital de circunstâncias externas (em complemento aos fatores inatos), nas quais está incluída a qualidade dos cuidados maternos:
“ser ou não a criança adequadamente alimentada e cercada de cuidados maternais, fruir plenamente ou não a mãe os cuidados com o filho ou ser ela ansiosa e ter dificuldades psicológicas com a amamentação, são todos fatores que influenciam a capacidade do bebê em aceitar o leite com prazer e internalizar o seio bom (p. 31).”
Winnicott (1988b), por sua vez, propõe uma “primeira mamada teórica”, conceito que serve de protótipo para a primeira experiência subjetiva de relação, sendo ela, ao mesmo tempo, constituinte da própria subjetividade.
“A primeira mamada teórica é representada na vida real pela soma das experiências iniciais de muitas mamadas. Após a primeira mamada teórica, o bebê começa a ter material com o qual criar. É possível dizer que aos poucos o bebê se torna capaz de alucinar o mamilo no momento em que a mãe está pronta para oferecê-lo. As memórias são construídas a partir de inúmeras impressões sensoriais, associadas à atividade de amamentação e ao encontro do objeto.”
Haveria em meio a essa construção, em um primeiro momento,
“um estado temporário próprio da primeira infância em que ao bebê é permitido pretender um controle mágico sobre a realidade, um controle que, nós sabemos, foi tornado real pela adaptação da mãe, mas disso o bebê ainda não sabe (p.126).”
Aquilo que Winnicott abarca sob o conceito de “primeira mamada teórica”, é o próprio movimento rumo à humanização, um salto que faz do corpo orgânico um corpo simbólico. Isso só pode se dar na experiência de relação quando, nas palavras de Denis Vasse (1987), “de repente, a intimidade da relação boca-comida produz sensações – um gosto – irredutivelmente ligadas à intimidade da relação daquele que dá com aquele que recebe, da mãe e da criança” e, assim sendo, “decifrar as sensações que o comer proporciona, diz alguma coisa da maneira inconsciente de ser com alguém”.

Essa experiência primitiva, assim como está na base do desenvolvimento emocional de qualquer ser humano, certamente permeia todo o processo psicanalítico, na medida em que tal campo arcaico serve de base às experiências seqüentes – que, por sua vez, ressignificam aquelas primeiras. Da mesma forma que o mundo adulto enraíza-se no infantil, lugar das primeiras experiências subjetivas com o seio-ambiente, também o campo transferencial remeterá, necessariamente, a tais experiências. Klein (1957) observa em sua experiência clínica,
“que a análise percorre o caminho que vai do estado adulto à infância e, através de estágios intermediários, retorna ao estado adulto, num movimento recorrente, para cá e para lá, de acordo com a situação transferencial predominante (p.29).”
É nesse sentido que me sustento na proposição de que a escuta analítica, a intimidade entre analista e analisando, em certos momentos de uma análise, se realiza como metáfora da relação íntima da mãe com o seu bebê, que dá o seio e dá palavras, nomeia, auxilia na “digestão” das experiências e sensações da criança, faz-se presença.

O leite com o qual o bebê é alimentado é também a mãe incorporada como presença, desde que haja uma relação de amor mediada pelas palavras: é ela que possibilita a comunicação (do contrário, comer não seria nada além de uma suplência orgânica). E eis que “na satisfação e no apaziguamento da tensão pulsional oral aparece o sorriso como significante de uma relação de presença além da relação de consumo” (VASSE, 1987, p.32).

Assim, uma alimentação que não fosse
“codificada por estes movimentos ritmados pela música das palavras e da voz (…) só remeteria a uma atividade neutra de mastigação e deglutição, a um ato de comer desumano – sem gosto, sem perfume, sem palavras. A deglutição, então, só remeteria a si mesma sem fazer ato de presença, sem incorporar. (…) [Quando] a mastigação e o gesto que nutre se encontram desconectados da palavra (…) e a boca não é mais um limite ativo que se incorpora no encontro, ela é um buraco que devora ou vomita, repete ou morde e só discorre para não se entregar à distorção do furor ou do alarido (VASSE, 1987).”

(…)

Dupla angústia na base da vida de relação

Desejo agora investigar organizações cujo manejo clínico requer uma experiência em direção aos limites, de onde nascem os símbolos: são as organizações comumente chamadas de “casos-limite”, ou “borderlines”. Costuma-se considerá-las em relação à psicose, certamente por remeterem-se, no contexto transferencial, às experiências traumáticas na primeira infância e a uma certa precariedade simbólica. No entanto, muitos analistas hoje concordam com as proposições de Green (1990), que concluiu, através de seus estudos desses casos, que eles não poderiam “ser definidos unicamente em relação à psicose. O que quer dizer que não eram simplesmente psicoses latentes ou psicoses com poucos sintomas, mas sim organizações originais” (p.12). Para ele, essas organizações se caracterizam por apresentar uma “dupla angústia contraditória: a angústia de separação, com todos os problemas acarretados por qualquer luto e pelos lutos intermináveis e não vivenciados” e a “angústia de intrusão” (p.13).
“Se centralizássemos os acontecimentos em torno dessa dupla angústia, poderíamos efetivamente compreender que falamos de limites existentes entre o ego e o objeto, seja quando o objeto parece inacessível, inatingível, sempre fora do alcance do investimento, seja, ao contrário, quando temos o objeto ‘mordendo’ o território do ego, perseguindo-o dentro de seu próprio território (p.13).”
Temos, nessas organizações limites, uma diferença fundamental em relação a o que se passa na psicose: há limite entre eu e outro, e toda defesa aí construída age no sentido de preservar uma existência vivida sob ameaça (sendo a alteridade experimentada como ameaçadora da integridade psíquica).

Os nós traumáticos intrínsecos à dupla angústia, bem como as defesas contra ela construídas, remetem-se às primeiras relações, aos momentos precoces de simbolização e delimitação do eu, sendo constantemente rearticulados na vida adulta. Assim, mantendo suas raízes no contexto dos primeiros cuidados dispensados ao bebê, os sintomas atuais exigem da análise um trabalho de base: uma reedição do contexto originário no campo transferencial, para que ele possa ser “revivido” de um outro modo.

Isso requer um manejo delicado, pois o que se encontram de fato na clínica dos chamados “casos-limites” são expressões ambíguas, e uma situação complexa na qual ambas as angústias se articulam, sendo vividas sob um movimento paradoxal: “a angústia de separação atinge seu grau máximo quando o objeto está presente e (…) a angústia de intrusão não se manifesta de modo predominante quando o objeto está presente, mas, precisamente, quando o objeto não está presente” (GREEN, 1990, p.13-14)3.

Aqui novamente nossa atenção volta-se para a metáfora da alimentação relacionada ao manejo clínico, focando o erotismo oral a delinear os primeiros traços simbólicos da experiência de contato com o outro, via nutrição e via comunicação. Consideremos, portanto, a precariedade dos limites constituídos entre eu e outro e as defesas presentes nesse campo.

Em um contexto primitivo no qual o bebê depende absolutamente de cuidados, da presença do objeto, a boca “pode encontrar-se completamente desinvestida pela libido, quando se verifica – de uma certa maneira fantasmática, que pode ser a priori ou a posteriori4 – que falar não serve para nada, isto é, que não há ninguém para escutar quem fala, quem grita, quem demanda, quem tem fome” (VASSE, 1987, p.13). Poderíamos relacionar o desinvestimento do objeto somente à angústia de separação. Porém, há uma complexidade aí envolvida: o terreno abandonado é justamente aquele que tende a ser invadido (por um câncer, por um alimento indigerível, por algo sem nome).

De outro modo, podemos também pensar no que advém de uma experiência de relação mãe-bebê onde a amamentação é operatória, invasiva. Quando o seio é oferecido sem que o desejo tenha se manifestado – até mesmo calando-o –, resta a criatividade reclusa, a boca fechada (ou a deglutição desvitalizada, que é a boca fechada ao sabor). Um ambiente
“que satisfaz operatoriamente a todas as necessidades, antes mesmo que elas se exprimam, até mesmo para que elas não se exprimam de outra maneira, a não ser aquela que ‘se’ possa responder, (…) tem como aspiração inconsciente nada querer saber do que fala originariamente no homem’ (VASSE, 1987).”
Um terreno invadido, que não tenha vida própria (onde nada de autêntico pôde crescer e frutificar), e só encontre uma possibilidade de existência através da adaptação a ao ritmo do invasor5, restaria absolutamente sem estofo diante de um abandono. Eis mais uma ilustração da imbricação complexa que nos leva a não considerar as angústias propostas por Green (1990) isoladamente.

É possível, a partir dessas colocações, vislumbrar os impasses vividos no contexto clínico dos “estados-limites”, em que tanto a distância eu/objeto quanto a sua proximidade tendem a serem perturbadoras. Mas é exatamente nesse campo que a construção de um novo âmbito de relação se impõe, de modo a que os movimentos do analisando sejam sustentados, ventilando o que se calou, dando-lhe expressão.

(…)

jul 28, 2008

O Brincar e a Psicanálise

Introdução

A psicanálise nasceu como um método investigativo aplicado a adultos. O valor da interpretação foi compreendido por Freud desde o primeiro momento, quando comprovou que, comunicando seus descobrimentos em momento oportuno ao paciente, conseguia que este tornasse consciente o que até então estava reprimido. Associação livre, transferência e interpretação foram os três pilares da técnica de Freud para fazer consciente o inconsciente.

Em 1905 tentou, pela primeira vez, aplicar este método à cura de uma neurose infantil: tratava-se de uma zoofobia de um menino de cinco anos (o ‘Pequeno Hans’). O sucesso terapêutico obtido por Freud ao analisar essa criança, através do relato de seu pai, permitiu alentar a esperança de aplicar o método analítico aos transtornos e enfermidades de crianças de pouca idade.

Segundo as palavras de Freud,
“Ousaremos supor que realmente existe na psique uma compulsão a repetição que se instaura mais além do princípio do prazer. Também estaremos agora inclinados a relacionar com essa compulsão os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas e o impulso que leva as crianças a jogar.”
Freud descobriu a importância dos jogos lúdicos na análise infantil em Além do Princípio do Prazer (1921), onde um menino fazia aparecer e desaparecer um carretel, tentando, assim, dominar suas angústias frente ao aparecimento e desaparecimento da mãe. A criança mostrou como, ao brincar, podia separar-se da mãe sem o perigo de perdê-la, já que o carretel voltava quando ele assim o desejasse. Essa atividade permitia ao menino elaborar suas angústias ante as situações de separação impostas pela realidade, inevitáveis para ele.
“Toda criança que joga se comporta como um poeta, enquanto cria um mundo para si, ou, mais exatamente, transpõe as coisas do mundo em que vive para uma ordem nova que lhe convém (…) O poeta faz como a criança que joga; cria um mundo imaginário que leva muito a sério, isto é, que dota de grandes qualidades de afetos, distinguindo-o claramente da realidade. (Freud, 1910)”
A maior dificuldade encontrada ao aplicar a técnica de Freud às crianças foi a impossibilidade de conseguir delas as associações verbais. Faltava então o instrumento fundamental da análise de adultos. Dessa forma, os diferentes modos de adaptar o método analítico à mente das crianças deram origem às técnicas da psicanálise infantil. Sophie Morgenstern, na França, e Anna Freud e Melanie Klein, em Viena, publicaram os primeiros livros sobre o tema.

Apesar de ter introduzido a possibilidade de uma Psicanálise Infantil, Freud desencorajou seu posterior desenvolvimento em História de uma Neurose Infantil (1918), onde afirma:
“A análise conduzida diretamente junto a uma criança neurótica pode, é claro, parecer mais confiável, mas não pode apresentar um material muito rico; é preciso emprestar uma quantidade enorme de palavras e pensamentos à criança, e mesmo assim os estratos mais profundos podem se mostrar impenetráveis ao consciente.”
Melanie Klein contra argumenta Freud em seu artigo: Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas (1926). Ela diz que ao se abordar uma criança com técnicas apropriadas para adultos, certamente não será possível penetrar nas camadas mais profundas de sua vida mental. Porém, se forem utilizadas técnicas apropriadas e se forem levadas em conta as diferenças psicológicas entre crianças e adultos, tal como o fato de que na criança encontramos o inconsciente em ação lado a lado com o consciente, todos esses pontos duvidosos e desfavoráveis deixam de existir.

Desse modo, temos que se pode esperar a mesma profundidade e abrangência na análise de crianças do que na de adultos . Há ainda um ponto favorável à análise de crianças: “nela podemos chegar a experiências e fixações que no caso dos adultos só pode m ser reconstituídas, enquanto nas crianças elas são representadas diretamente.” (Klein, 1926 p.160)
“Assim como o meio de expressão das crianças não é o mesmo que o dos adultos, a situação analítica na análise de crianças também parece completamente diferente. No entanto, em ambos os casos ela é essencialmente a mesma, caracterizando-se por interpretações consistentes, solução gradual de resistências e rastreamento persistente da transferência até as situações mais iniciais. Trata-se de técnicas diferentes, e não de novos princípios de tratamento. (Klein, 1926 p.161)”
O método do brincar mantem, para tal autora, todos os princípios da psicanálise e leva aos mesmos resultados da técnica tradicional. A diferença é que ele emprega recursos técnicos adaptados à mente da criança.

O Brincar na perspectiva winnicottiana
“A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é. (O Brincar e a Realidade, p.81)”
Winnicott, apesar de acolher muitos aspectos da teoria kleiniana, contesta a idéia da autora de que o brincar está intimamente relacionado à masturbação e às variadas experiências sensuais. Segundo o autor, o elemento masturbatório está essencialmente ausente no momento em que uma criança brinca; ou em outras palavras, quando uma criança está brincando, se a excitação física do envolvimento instintual se torna evidente, então o brincar se interrompe ou, pelo menos, se estraga.

Em outro livro, A Criança e Seu Mundo, Winnicott reflete sobre os motivos pelos quais a criança brinca (cap 22; Por Que as Crianças Brincam? ). Descarta de cara a idéia muito comum de que seria uma forma de escoar sua agressividade, “como se a agressão fosse uma substância má da qual a pessoa pudesse se livrar” (1982, p.161). O autor defende que a criança brinca por prazer e, também, para dominar angústias, controlar idéias ou impulsos que conduzem à angústia se não forem dominados.
“A angústia é sempre um fator na brincadeira infantil e, freqüentemente, um fator dominante. Um excesso de angústia conduz à brincadeira compulsiva, ou à brincadeira repetida, ou ainda a uma busca exagerada dos prazeres que pertencem à brincadeira. Se a angústia for muito grande, a brincadeira redunda em pura exploração da gratificação sensual. (1982, p.162)”
Winnicott faz ainda outra ressalva, de que o uso da brincadeira como comunicação na psicanálise de crianças fez, em muitos momentos, com que o analista ficasse mais preocupado com o conteúdo da brincadeira, do que com a criança que brinca. Além disso, o brincar se faz tão presente na análise de crianças quanto na de adultos. Nesses últimos o brincar se manifesta através da escolha de palavras, nas inflexões de voz, na verdade, no senso de humor.

O Brincar, para o autor, tem um lugar e um tempo. Este lugar não é dentro e nem fora, não é interno e nem externo. “Para controlar o que está fora há que fazer coisas, não simplesmente pensar ou desejar, e fazer coisas toma tempo. Brincar é fazer” (Winnicott, 1971). A fim de dar um espaço para o brincar, Winnicott postulou a existência de um espaço potencial entre a mãe e o bebê, entre o mundo interno e a realidade concreta ou externa. E ainda salientou uma mudança de paradigma na seqüência: psicanálise, psicoterapia, material da brincadeira, brincar. A brincadeira é que é universal, que é própria da saúde.
“O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (Winnicott, 1982)”
Para entender o lugar a qual pertence o brincar, o autor analisa o desenvolvimento da criança e suas relações de objeto. Primeiro bebê e mãe são fundidos um no outro. Depois, a mãe tenta satisfazer todos os desejos do bebê, se esforça para ser o que o bebê tem capacidade de encontrar. Esse esforço da mãe oscila com outra conduta; ‘ser ela mesma’, aguardar o encontro.Quando a mãe desempenha bem tal papel, o bebê se sente confiante e começa a fruir de experiências baseadas num ‘casamento’ da onipotência dos processos intrapsíquicos com o controle que tem do real. A confiança na mãe cria um playground intermediário entre o bebê e seus objetos.A importância do brincar consiste extamente na precariedade do interjogo entre a realidade psíquica pessoal e a experiência de controle de objetos reais, é a magia que se origina na intimidade, num relacionamento que está sendo descoberto como digno de confiança.

No artigo A capacidade de brincar: um desenvolvimento necessário no adulto e na criança Audrey Setton (psicanalista contemporânea) retoma a questão proposta por Winnicott de que tanto no jogo da criança, como no do adulto, a capacidade de brincar é uma prerrogativa para que haja um bom contato com a realidade. Isso pode, a princípio, soar paradoxal, uma vez que o brincar parece estar na direção oposta da concretude do real. Porém, é somente através do brincar que o indivíduo estabelece contato com a realidade interna e externa, podendo explorá-las e, dessa forma, aprender sobre si e sobre o mundo.

Tanto adultos quanto crianças, quando procuram análise necessitam da ajuda de seus analistas para criar esse espaço mental para a vivência e exploração de seu mundo interno; de uma relação na qual primeiramente possam brincar, ou seja, de um espaço seguro no qual possam vivenciar suas fantasias sem o risco da ação. Segundo Parsons (2001), “trata-se de uma experiência de expansão de limites e o súbito prazer de descobrir uma inesperada liberdade de investigação”.

Na experiência analítica Freud já apontava para a transferência como um playground, uma área intermediária entre a doença e a vida real, necessária para que a análise pudesse operar. A transferência permite retirar a compulsão à repetição da clandestinidade ao admiti-la em seu interior, como se em um playground. Permite que, dessa forma, meio real, meio brincadeira, a transferência possa se expandir com mais liberdade e, também, revelar ao analista os instintos patogênicos escondidos na mente do paciente.

Gilberto Safra (psicanalista contemporâneo) coloca que o brincar tem a função de ampliar a significação da realidade. Em seu artigo O brincar sob a perspectiva winnicottiana diz:
“Brincar é imensamente excitante. Excitante não primariamente porquê os instintos estejam envolvidos. (…) A excitação do brincar não é decorrente dos instintos, e sim ligada à dimensão estética da experiência e, também, à possibilidade de se criar diferentes sentidos de realidade existencial. Há no brincar a abertura de mundos, a abertura de significações que oferece à criança ou ao adulto a possibilidade de colocar em devir o seu próprio viver e o seu ser em desdobramentos contínuos. (2006, p.158)”
Dessa forma, o trabalho clínico deve sustentar a própria atividade do brincar para que a função de criar realidades e sentidos, para que a função simbolizante, possa acontecer, revelando e constituindo a subjetividade da criança e o seu estar no mundo.Ao jogar em determinado ambiente a criança o ressignifica, imprimindo a ele uma organização diferente daquela que lhe foi oferecida. Isso significa que todo brincar demanda um tipo de ruptura com o que é dado.

No momento em que uma criança está criando um jogo a partir dos objetos que lhe foram oferecidos, estão atuando, ao mesmo tempo, sua biografia (seu passado, suas preocupações e angústias relacionadas a sua história) e uma tentativa de formular uma solução para suas questões que é um ‘pressentimento do futuro’, acontecendo o projetar de um horizonte existencial possível. “A criança que brinca abre uma situação no agora e, ao mesmo tempo, funda mundos para o amanhã A brincadeira promove passagens entre mundos e entre tempos” (Safra, 2006, p.14).

Winnicott, por sua vez, se colocava mais preocupado não tanto com o que pudesse estar simbolizado no jogo, mas sim com o impedimento do jogo. “No momento em que o jogar se estanca, há o adoecimento”. Isso, pois o jogo constitui os modos de ser, os mundos possíveis, o sonho do futuro, a sustentação do devir humano, ele é em si mesmo terapêutico. “O Brincar, por suas características, cura a criança e o homem. Independente das interpretações que o analista pode fazer frente ao jogo, ele por si mesmo promove a transformação e a cura” (1975).

Porém,vale ressaltar que, em alguns momentos, o fato de uma criança não brincar pode não ter o caráter de uma inibição. Ela pode estar simplesmente experimentando o vazio. Isso vale para crianças que foram excessivamente formatadas e submetidas ao seu meio ambiente ou, ainda, para crianças que foram excessivamente sufocadas pela expectativa dos pais. Porém, essa discriminação só é possível observando os modos de ser da criança e conhecendo sua história.