A Questão do Dinheiro em uma Clínica Institucional

Publicado por Gabriela Di Giacomo

A temática do pagamento é relevante e presente em qualquer situação de análise. Pela via do dinheiro circulam aspectos que precisam de escuta por parte do analista e que fundamentam certos manejos clínicos. Em Psicanálise, portanto, o pagamento não é uma problemática concreta, alheia ao padecimento do paciente. Pelo contrário, ele deve ser tratado tão singularmente como o sofrimento único daquele que fala. Como fica, então, quando o pagamento está inserido em um contexto de clínica social? Este foi o ponto de partida de discussões bastante férteis entre colegas de uma equipe clínica que culminaram na produção deste texto.

Em uma clínica institucional temos um elemento a mais em relação à clínica particular: a instituição intermedeia o contato analista-analisando e perpassa-os com suas leis. Neste contexto, é importante que a inclusão institucional não impeça o reconhecimento das implicações clínicas vinculadas ao pagamento. Nesse sentido, é essencial que a definição do contrato de pagamento possa ser feita no contexto analítico, mesmo que norteada pelos parâmetros institucionais. Por outro lado, é muito interessante quando se pode contar com um dispositivo institucional de entrevista com assistente social, ao qual temos a possibilidade de recorrer em casos em que clinicamente entendemos ser necessária a inclusão de um “terceiro” que legalize certas decisões da dupla. O uso deste dispositivo, entretanto, lança seus efeitos no atendimento, o que demandará, por sua vez, um trabalho clínico. Alguns destes entrelaçamentos clínico-institucionais, no que tange ao pagamento, serão ilustrados na vinheta clínica que se segue.

Maria (*) procurou a clínica nesta instituição e começou sua análise pagando um valor previamente combinado com a analista. Após alguns meses ela vivenciou uma separação conjugal e passou a ter sérias dificuldades financeiras. Nesse contexto, a analista recorreu ao dispositivo institucional das entrevistas com a assistente social, oferecendo a possibilidade da paciente ficar isenta do pagamento em dinheiro. Maria, por sua vez, apresentou certa resistência em aceitar a proposta. Tal dificuldade se manifestou primeiramente em constrangimento e recusa imediata, depois em silêncio. Como a situação financeira da paciente só agravava, sua resistência ia ficando mais evidente, até que ela solicitou um horário com a assistente social. A pergunta que surgiu no momento foi: qual o fantasma/fantasia que poderia estar por trás de sua dificuldade de passar à condição de não pagante em dinheiro? Qual era o significado de pedir ou aceitar ajuda financeira para Maria? A partir da entrevista realizada com a assistente social e a isenção do pagamento em dinheiro, ocorreu um desinvestimento por parte da paciente em relação à análise, que se expressou em inúmeras faltas sem aviso. Será que não poder pagar em dinheiro significava uma perda de valor? Será que a análise passou a lhe custar muito caro quando já não era mais paga em dinheiro? Passaria a paciente à condição de devedora?

Diversas vezes, em sua história de vida, Maria recorreu ao pagamento através do corpo quando passava por dificuldades financeiras. E agora, na análise, como pagaria? Com o quê pagaria? O significado do dinheiro, para esta paciente, trazia à tona questões relativas a sua sexualidade e aos tipos de relações de troca que estabelecera, até então. Será que para Maria o custo do tratamento não seria mais caro que o custo de seu sofrimento, de seu sintoma?

Em relação ao manejo do analista, como positivar para a paciente o valor de sua análise e, também, como incluir a presença de um outro tipo de pagamento que não em dinheiro, uma vez que, nas palavras da prórpia paciente, “ninguém dá nada de graça” . Como explicitar para ela os ganhos do terapeuta para que não sejam geradas “dívidas” na relação?

Outro paciente desta mesma instituição, uma criança de oito anos, virou-se à psicóloga e disse: “Você ganha para trabalhar comigo? Deve ganhar bastante dinheiro porque trabalha muito bem!”. Não há espaço nesse escrito para maiores esclarecimentos do caso, mas fica registrado na fala desse menino que as trocas: poder oferecer algo ao terapeuta, além de receber seus cuidados, é essencial para um bom andamento de um processo analítico. Em situações como essas se cria uma ótima oportunidade para o analista refletir sobre toda a gama de ganhos em seu trabalho que não, apenas, o monetário.

Temos, a partir desses exemplos, que a questão do dinheiro circula de forma diferente em cada par analista-analisando e, desta forma, é importante que tal fato não seja negligenciado no decorrer do processo analítico. A não presença concreta do pagamento, ou seja, a inexistência do dinheiro como moeda de troca- nesse contexto- não implica em uma ausência. Pelo contrário, constitui a presença de significantes que circulam na transferência e que vão adquirindo diversos significados no decorrer da análise.

(*) nome fictício

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Autor: Gabriela Di Giacomo
Categoria: Ensaios

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